segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Tomato Rice

Após várias semanas a acampar e a partilhar cozinhas em parques de
campismo, percebemos que existem vários perfis de cozinheiros. Alguns
conseguem fazer pratos elaborados, até com certo requinte. Mas a maior
parte opta por cozinhar pratos simples, talvez por serem mais rápidos,
talvez por serem mais económicos ou talvez por não terem conhecimentos
e prática de cozinha que lhes permita ir mais além.

Se os australianos eram os reis das salsichas no barbecue, os
campistas estrangeiros têm um prato de eleição: Massa com Molho de
Tomate. Mas não se pense que é um molho de tomate caseiro, feito com
com tomates frescos. O molho de tomate é vendido no supermercado em
frascos de vidro e só é preciso aquecer. É um prato simples e rápido,
mas mesmo assim há quem consiga atrapalhar-se. A água da massa ferve
por fora do tacho, o molho de tomate espirra para todo o lado, etc.
Por isso não será de estranhar que basta refogarmos uma cebolinha para
alguém nos dizer: "hmmmm.... cheira bem!".

Costumamos estar atentos às promoções no supermercado e numa ocasião
conseguimos comprar uns lombos de tamboril a um bom preço, pelo que
decidimos cozinhar um belo arroz. Estávamos a meio da confecção quando
uma turista alemã, intrigada com o prato que estávamos a preparar, nos
interpelou.

Tentámos explicar-lhe que estávamos a fazer arroz de tamboril. Mas ela
não deu grande importância ao tamboril, estava mais interessada no
arroz com base de tomate que estávamos a preparar. Na sua mente, o
tomate apresentava-se em forma de molho e juntava-se à massa depois
desta estar cozida. Juntar tomate fresco em pedaços ao arroz e cozer
tudo junto era algo que nunca lhe tinha passado pela ideia. Ela ficou
a pensar no assunto e minutos depois regressou com o marido para nos
perguntarem a receita. Tentámos explicar-lhe o melhor que conseguimos,
dentro das limitações de ambos no que se refere ao inglês culinário:

Menina, isto é "Tomato Rice" (arroz de tomate), um acompanhamento
típico em Portugal que dá para tudo. Pode acompanhar "little-jacks"
(jaquinzinhos), "patanyskes" (pataniscas), "rissols and cod-cakes"
(rissóis e bolinhos de bacalhau), etc. Lá na sua terra pode
experimentar para acompanhar joelho de porco ou bratwursts. Cozinhar
arroz de tomate é muito simples. Basta picar uma "little onion"
(cebolinha) e um "tooth of garlic" (dente de alho) e refogar em azeite
com uma "sheet of blond" (folha de louro). Depois junta-se o arroz e
dá-se uma "stuck-it" (entaladela). Junta-se o tomate em pedaços e
cobre-se com água. Tempera-se de sal e pimenta e espera-se 10
minutinhos... O ideal é ter à mão uma garrafinha de tinto português
para os 10 minutos passarem mais facilmente.

B&A,
L+S

Aotearoa

Aotearoa é o nome Maori para a Nova Zelândia e significa "Terra da
longa nuvem branca". Confirmámos que é verdade, o céu nunca está
completamente azul. Suspeitamos que a origem do nome esteja na nuvem
que constantemente rodeia o Monte Tongariro, na ilha Norte. Nesta ilha
nota-se uma presença Maori muito mais forte do que na ilha Sul. Aliás,
de forma geral, a ilha Norte é a mais povoada, com cerca de 75% dos 4
milhões de habitantes da NZ. Só Auckland alberga cerca de 1 milhão de
pessoas. Por isso será fácil perceber que o resto do território seja
pouco povoado por humanos.

Vêem-se muitos animais. Há veados, há lamas, há vacas brancas com cara
preta, há vacas castanhas com cara branca, há vacas com penteados e
há... ovelhas! Muuuuuuitas ovelhas! Há ovelhas com cara branca, há
ovelhas com cara preta e há ovelhas com a cara parecida à do
respectivo pastor. Aliás, demasiadamente parecidas! Mas nós não
estamos aqui para julgar ninguém! Sabemos que as noites são frias, a
profissão de pastor pode ser solitária e como se diz por aqui "o que
se passa no curral, fica no curral"...

Apesar de ser um dos símbolos da NZ, um animal que nunca vimos por
aqui foi o Kiwi. Para quem não sabe o que é um Kiwi podemos
descrevê-lo como uma ave que parece um rato gordo, sem cauda, sem asas
e com um bico comprido. Parece estar em vias de extinção e só pode ser
visto nos vários centros de conservação que existem ao longo do país.

Também não comemos o fruto Kiwi. Não por não existir aqui, mas por ser
surpreendentemente caro, mais caro do que os Kiwis importados da NZ
que comemos em Portugal!

Quando chegámos à NZ tivémos alguma dificuldade em perceber o inglês
dos habitantes locais, pois têm uma pronúncia característica. Não
podemos esquecer que a NZ está isolada geograficamente e a língua
evoluiu de forma diferente. Já tinhamos sentido uma dificuldade
semelhante na Austrália. Mas a lígua portuguesa também tem destas
variações. De certa forma os australianos são os madeirenses, enquanto
que os neo-zelandeses são os açorianos da anglofonia. Por exemplo, o
"E" é dito como "I", enquanto que o "I" é dito como "U". Por isso
ouvem-se coisas como "fush & chups" (fish & chips) ou "tinnus"
(ténis). Se nos falarem em "tintin" provavelmente estão a referir-se a
"10:10"...

Mais do que pelas cidades e pelas pessoas, vale a pena visitar a NZ
pelas paisagens naturais. Há montanhas com neve, há fiordes, há
glaciares, há lagos, há paisagens vulcânicas, etc. Quase tudo isto
pode ser apreciado de perto e de graça, ou a um preço acessível.
Pode-se inclusive optar por fazer "freedom camping", desde que se
tenha uma caravana que tenha capacidade de guardar os resíduos
produzidos. Além dos tradicionais parques de campismo (que não existem
em abundância na NZ como existem na Austrália) pode-se parquear fora
das cidades ou em áreas do DOC (Departamento de Conservação da
Natureza), depositando uma quantia simbólica numa "Caixa de
Honestidade", conceito que para o resto do mundo pode ser no mínimo
intrigante.

A primeira pessoa que nos falou destas caixas foi um chileno que
conhecemos na Austrália e nos deu a seguinte explicação: "A caixa de
honestidade está à entrada dos parques naturais e às vezes em algumas
lojas, onde não está ninguém para te atender. Serves-te das coisas e
deixas o dinheiro na caixa. É muito tentador, podem lá estar milhares
de dólares e não há ninguém a ver. És só tu, mas sabes que Deus está a
olhar para ti! Se fosse no Chile, além de roubarem a caixa, pilhavam a
mercadoria e ainda incendiavam a loja!".

Uma das formas inesperadamente popular de viajar pelo país é de
bicicleta. Vêem-se algumas pessoas, homens e mulheres de todas as
idades, a pedalar rebocando o atrelado com os seus pertences. Na
Austrália a nossa tenda era a mais pequena, mas aqui parece uma mansão
comparada com as pequenas tendas dos ciclistas e dos caminhantes que
têm de carregá-las consigo. Conhecemos um ciclista austriaco que
pedalava 70 a 140 kilometros por dia. Encontrámo-lo várias vezes pelo
caminho. Já tinha pedalado mais de 5000 km em menos de 2 meses. No dia
que o conhecemos estava orgulhoso por ter atingido o seu record de
velocidade: 80 km/h a descer uma estrada de gravilha com o atrelado
preso à bicicleta!

Na NZ há uma grande preocupação com a possibilidade de contaminação do
ecossistema. Agora estão paranóicos com uma alga chamada Dydimo, que
existe em rios e lagos. Por todo o lado há alertas por causa do
Dydimo! A obsessão do Dydimo está para os neozelandeses como a do
Gluten está para os australianos...


Finalmente, aqui ficam algumas fotos da ilha Norte. Não pudemos
explorá-la tão bem quanto a ilha Sul porque surgiu uma complicação com
os nossos bilhetes de avião e tivemos de acelerar o passo até Auckland
para poder resolvê-la. Mas já decidimos que queremos voltar à NZ,
talvez nessa altura possamos dar a atenção devida à ilha Norte.

B&A,
L+S

PS – Queremos prestar uma homenagem final à nossa tenda que tivémos de
abandonar em Auckland, a qual nos abrigou durante mais de 2 meses sem
nunca nos deixar ficar mal. Sobreviveu a chuvas torrenciais e a
grandes vendavais. Podia não ser uma tenda grande, mas era uma grande
tenda...