domingo, 18 de setembro de 2011

Nanjing

Apanhámos o comboio rápido para Nanjing. É o último grito da
tecnologia chinesa, dizem que ultrapassa os 350 km/h. Fizemos a viagem
entre Pequim e Nanjing (cerca de 1000 km) em 3 horas e meia. É tipo
Alfa-Pendular, mas um bocadinho mais rápido. Entre as duas cidades
vêem-se centenas de kilometros de planícies de cultivo. Espalhados
aqui e ali existem aglomerados de prédios, há muita construção em
curso na China. Aqui não se constroi um prédio de cada vez, são
construídos dezenas ao mesmo tempo, e todos iguais.

Porque decidimos incluir Nanjing no nosso itinerário? Em primeiro
lugar porque teríamos de passar por lá entre Pequim e Shanghai. Depois
porque nos pareceu uma cidade atraente em termos históricos. Já foi a
capital da China (Beijing = capital do Norte / Nanjing = capital do
Sul). Finalmente, porque era a única cidade que tinha um mapa
disponível na embaixada da China em Lisboa, logo haveria de ser um bom
sítio para visitar.

A primeira impressão foi boa. Estávamos perdidos à saída do metro, a
olhar para o mapa e fomos abordados por vários chineses que nos
procuraram ajudar. Um deles sabia falar inglês perfeitamente. Saiu
connosco da estação de metro, e como não conhecia o hotel ligou para
lá para obter direcções. Até consultou o Google Earth no telemóvel
para nos orientar... Que diferença em relação a Pequim!

As pessoas são simpáticas e a cidade afinal não é assim tão pequena,
há alguns arranha-céus e até um estádio olimpico que irá acolher as
Olimpíadas da Juventude em 2014. Nanjing é uma cidade média (para os
padrões da China) com cerca de 6 milhões de habitantes.

A caminho do hotel as pessoas iam olhando para nós, mais do que em
Pequim. Mas também seria de esperar, pois estávamos bem artilhados com
as mochilas. O hotel era decididamente chinês, com alguns anos de uso,
mas limpo. Apenas um dos recepcionistas sabia falar inglês, e
suspeitamos que foi convocado propositadamente para nos receber
naquele dia. Devemos ter sido os primeiros hóspedes ocidentais naquele
hotel. Mais tarde saímos para reconhecer a zona e comprar água e fruta
e percebemos que éramos olhados com algum espanto, embora agora já não
transportássemos as mochilas...

No segundo dia na cidade fomos comprar o bilhete de comboio para
Shanghai. Na China os bilhetes têm de ser marcados com alguma
antecedência, pois os comboios esgotam com facilidade. E à excepção de
alguns comboios, temos sempre de nos deslocar à estação de origem do
percurso, pois não existe sistema integrado de venda. Na estação
existem máquinas de venda de bilhetes, muito eficientes mas que não
pudemos usar porque não temos BI chinês, por isso tivemos que esperar
atrás de uma fila de pessoas para comprar os bilhetes (à excepção de
um ou outro penetra, a fila até foi respeitada). Mais uma vez foi
simples fazer a compra. O truque é levar toda a informação escrita num
papel: nº do comboio, data, quantidade de bilhetes, classe.

Depois de tratado esse tema fomos dar uma volta pelo centro da cidade,
para tirar umas fotos e ir à procura do posto de turismo (não estava
assinalado no mapa que tinhamos). Toda a gente olhava para nós, não
conseguiamos passar despercebidos. À medida que nos aproximávamos do
centro histórico e comercial da cidade (zona do templo de Confúcio)
esta sensação agravava-se. Haviam muito turistas chineses, de
localidades circundantes e bastante mais pequenas que Nanjing, e eram
esses os mais curiosos em relação a nós. A certa altura passámos de
visitantes a atracções. Estávamos distraidamente a tirar umas fotos
quando percebemos alguma movimentação à nossa volta. Os chineses
estavam a fotografar-nos! Começaram dissimuladamente, mas às tantas já
o estavam a fazer discaradamente e cada vez mais próximos de nós.
Começámos a sentir-nos encurralados. No meio da confusão, uma mulher
queria que pegássemos na sua filha, eventualmente para nos tirar uma
foto com ela.

Decidimos sair dali rapidamente e refugiarmo-nos no posto de turismo
que entretanto descobrimos, onde (para nosso espanto) não sabiam falar
inglês. Pedimos indicações sobre as principais atracções de Nanjing e
balburciaram qualquer coisa como "No no no...". Pedimos um mapa e
disseram-nos que não tinham. Mas num escaparate lá estava um folheto
com um mapa e as atracções de Nanjing...

As atracções turisticas de Nanjing não são muitas nem espantosas.
Ficámos um pouco decepcionados com a cidade, e um pouco transtornados
com a situação de sermos verdadeiros ET's nesta terra. Por isso
decidimos passar algum tempo sossegados numa zona mais isolada, uma
zona arborizada onde estão localizadas algumas atracções. Poucas
coisas estão assinaladas em inglês e as entradas são caras (mais caras
do que em Pequim). Comer em Nanjing também é mais complicado do que em
Pequim, nada estava escrito em inglês, os empregados de restauração
não só não falam inglês como assumem que nós falamos chinês. Numa
ocasião, entrámos num restaurante e sentámo-nos na mesa que nos
indicaram. Apontámos para o menu (que continuamos a não perceber) e
pedimos a comida. A empregada anotou o pedido e disse-nos qualquer
coisa em chinês, ao que nós respondemos "Coca-cola". Ela repetiu a
mesma coisa, e nós respondemos "Só uma". À terceira vez umas raparigas
que estavam sentadas na mesa ao nosso lado começaram a rir-se e lá nos
disseram "48!". Lá percebemos que a empregada estava a pedir que
pagássemos logo e não a perguntar a bebida...

Em resumo, apesar da primeira impressão agradável, Nanjing não está
preparada para estrangeiros, apenas para turistas chineses. As
infraestruturas para as Olimpíadas da Juventude estão no bom caminho,
mas precisam de preparar melhor as pessoas e os serviços até 2014.

Esta situação fez-nos começar a colocar em causa um dos destinos que
tinhamos alinhado para visitar mais à frente: Guilin. Nanjing tem 6
milhões de habitantes, tem metro (com um sistema sem bilhetes,
funciona com fichas tipo carrinhos-de-choque) e arranha-céus. Como
seremos recebidos em Guilin que só tem 650.000 pessoas, não tem metro
nem grandes infraestruturas?

Partimos no dia seguinte para Shanghai. A estação Nanjing-Sul é uma
das maiores da Ásia. Lemos algures que o troço Nanjing-Shanghai é um
dos mais movimentados do mundo, em termos de passageiros e
mercadorias. Esperamos não ser ET's também em Shanghai...

B&A,
L+S

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