quarta-feira, 21 de setembro de 2011

T77

Após a experiência de Nanjing, decidimos investigar com maior
profundidade se o próximo destino, Guilin, estaria preparado para
acolher turistas ocidentais. Optámos por seguir para Yangshuo, uma
pequena cidade a sul de Guilin que vive de e para o turismo. A única
forma de chegar a Yangshuo é por Guilin, por isso teriamos de apanhar
um comboio com destino a essa cidade.

Ora, há vários comboios entre Shanghai e Guilin e escolhemos,
obviamente, o mais rápido. A viagem demorou apenas 20 horas, para
percorrer 1800 km. Partimos às 16h30 e chegámos às 12h30 do dia
seguinte. Infelizmente não há comboios-bala nesta parte da China, mas
a linha rápida está já a ser construida paralelamente à linha actual.

Após a excelente impressão que tivemos da nossa viagem no
comboio-bala, a nossa expectativa era alta. Sabiamos que este comboio
não teria as mesmas condições, mas não estavamos preparados para o que
nos aguardava. O T77 é um comboio noturno com carruagens-cama, não tem
lugares sentados. Ao longo de cada carruagem há um estreito corredor
lateral junto às janelas, que é utilizado por passageiros e
vendedores. Debaixo de cada janela existem pequenas mesas e bancos
rebativeis. O resto do espaço é ocupado pelos 12 compartimentos-cama,
onde existem dois beliches de 3 andares em cada um.

Quando comprámos os bilhetes escolhemos as camas de cima, pois
estariamos mais resguardados dos restantes passageiros. Tinhamos lido
que as camas de baixo eram geralmente utilizadas como assentos, porque
no corredor não há lugares para todos. Tinhamos lido também que as
camas de cima tinham pouco espaço mas não nos importámos com isso. O
que não lemos em lado nenhum é que as camas de cima ficam a mais de 2
metros de altura e que não há escadas de acesso... Tivemos de usar as
camas de baixo e do meio para "treparmos" até às nossas. Outra coisa
que não é dita é que as camas de cima ficam muito perto do candeeiro,
dos altifalantes e especialmente do A/C. Estava um frio de rachar no
compartimento, felizmente os edredons estavam limpos, pelo que
conseguimos dormir quentes.

Mas ainda o comboio não tinha partido da estação e já andava um homem
vestido com calças de pijama aos bonecos e camisa interior de alças...
Toda a gente tirou os sapatos e calçou chinelos. Digamos que as unhas
dos pés dos chineses dariam direito a um post...

Ao longo de toda a viagem passavam no corredor vendedores com os seus
carrinhos. Havia o vendedor de fruta e vegetais que já deve ter sido
tenor numa ópera chinesa, cada vez que passava por um dos
compartimentos assustava toda a gente com o seu pregão. Havia a
vendedora de arroz com qualquer coisa a acompanhar. Havia a vendedora
de toalhas de rosto. Havia a vendedora de brinquedos chineses. E havia
o nosso vendedor favorito, que na primeira vez que passou vendia
revistas chinesas. Na segunda vez já vendia palmilhas ortopédicas. Nas
vezes seguintes vendia outros itens. E na última vez vendia uma cera
de limpeza que fez questão de demonstrar a sua qualidade, limpando um
pedaço da parede do comboio. Até então nós pensávamos que as paredes
eram cinzentas, mas ele conseguiu demonstrar que afinal eram brancas.
Porque é que ele não veio desde o início da viagem a limpar o comboio
com a cera?

Outra personagem era um dos funcionários do comboio, aquele senhor que
durante as paragens sai do comboio e procura fissuras nas rodas das
carruagens, batendo com um martelo de ferro. Alguém se lembra do
Guarda Serôdio dos "Amigos do Gaspar"? Pois este era semelhante. Tinha
repas/franja que saíam por baixo do boné (que não lhe passava do alto
da cabeça) e lhe caiam sobre os olhos em bico. Era magricela e
transportava constantemente o martelinho e a lanterna.

Tirando as camas, não se pode dizer que o T77 seja um comboio limpo. E
a culpa é dos passageiros. A maior parte dos nossos companheiros de
compartimento deitavam o lixo para o chão, apesar de existir um
caixote de lixo em cada compartimento. Estamos a falar de pacotes de
bolachas vazios, cascas de fruta, etc. Mas não deve ter sido
intencional, pois deviam estar distraidos pelos constantes jogos de
cartas. Quando demos conta estavamos nós no corredor e estavam 7
chineses a jogar cartas dentro do nosso compartimento.

Esta é uma experiência obrigatória para quem quiser visitar a China.
Mas bastariam 2 ou 3 horas no comboio, não seriam necessárias 20 horas
de experiência...

B&A,
L+S

2 comentários:

Ana Viegas disse...

E a que estavam eles a jogar? À sueca?

Tiago Conde disse...

À sueca não pode ser porque estão 6 lá dentro :D

Bom post!!! Aprende-se mais nestas viagens do que a visitar monumentos :D